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A Vocação: Realização da Capacidade de Amar

Doc. 55, n. 63

Jo 1,35

A Vocação dos primeiros discípulos segundo João é recordação de um momento da sua vida: fundamental. Lembrava os detalhes. Momento da guinada, início daquele amor que definirá toda a sua vida, definição de si mesmo naquele amor.

Aqui, nós lembrarmos o que preparou o passo que demos. Dúvidas, incertezas, medo, dificuldades, etc. Tudo isso faz parte da história da nossa vocação e apresentam os sinais da procedência da nossa vocação: provém do próprio Deus, de uma escolha… como o Povo de Israel, cada pessoa se torna objeto dessa escolha (que é uma escolha de amor - «Não foram vocês que me escolheram, fui eu que os escolhi…»). Houve uma iniciativa.

Com a vocação descobrimos porque estamos neste mundo. Deus pensou em nós assim: com o nosso caminho, vocação… por ela existimos. Escolheu-nos com amor especial. Escolha de amor que não é fria. Mostra amor de predileção.

Que procurais?» Realizar minha vocação. Desse modo, tudo o que é nosso entra no dinamismo próprio do chamado: corpo, saúde, doença, descanso, cansaço, alma, trabalho, frutos que colhemos, os não colhidos, alegrias, família… tudo é oferta, entrega: tudo se transforma em meio, condição do amor; máxima expressão do amor é ser capaz de dar a vida, que significa – não buscar a si mesmo, não tem reservas para si, entrega-se.

Entende-se isso em Jo 10,11-18.

Que direitos tem o Bom Pastor? Poder amar e dar a vida. Os outros direitos para Ele não contam… e, por isso, nunca se sente frustrado porque pode sempre amar da melhor maneira possível: a que o Pai lhe pede. O problema da frustração não existe para Jesus pelo simples fato de que soube dedicar sua vida ao amor. A frustração começa quando uma pessoa faz da missão recebida um simples parênteses ou o centro de seu próprio interesse (tirar benefícios pessoais). É verdade que uma «personalidade» assim, nunca está de moda.

Se o bom pastor não dá seu tempo, suas qualidades, seu dinheiro, seu afeto esponsal… também não vai dar a vida… Se alguém diz que dá a vida e não dá as coisas (aquelas que estão junto do coração), de pastor só tem o nome.

E o Bom Pastor quer se aproximar de todos os homens de todas as épocas através de seus sinais pessoais: os seus ministros – sinais de Cristo. Por isso, da mesma forma que o Bom Pastor, é fundamental que o motor da vida do sacerdote (a começar no Seminário) seja o amor.

E o ponto de referência é sempre Cristo: na hora da formação… O processo de formação se dá ao redor d’Ele: passar do conhecimento ao amor e do amor à imitação.

Desse modo, o processo de formação ele se apresenta como um processo de transformação em Cristo. Formação como transformação é passar do conhecimento de uma realidade à interiorização de seu valor e, finalmente, à vivência desse valor.

Na base do conhecimento de Jesus está o encontro com Ele: não como uma teoria (ninguém dá a vida por uma teoria); mas o conhecimento que se dá entre duas pessoas … ou seja, experiência do amor de Cristo que não se confunde com o sentimento (flutuante, não garante estabilidade na hora da opção), nem com o afeto sensível. Mas um encontro com o Cristo dos Evangelhos: a partir da experiência da fé, o Cristo vivo e real que se nos aproxima através do Evangelho, que se faz presente na Eucaristia, que se comunica a nós através da oração e do irmão (especialmente do mais ferido, desprezado, oprimido).

Essa forma de conhecer (experimentar e amar) Jesus é importante numa época como a nossa em que amor se confunde com emoção… o amor se manifesta nas obras (cf. Jo 14,15: Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos). É lógico que o sensível não está excluído, mas não é a base, ainda não é o amor amadurecido que leva à entrega real.

Se pudéssemos resumir em alguns pontos as principais características do amor a Jesus: pessoal, real, apaixonado e totalizante. (Esse é o amor que a obediência exige):

1. Pessoal: porque afeta à pessoa mesma e se dirige a Cristo enquanto pessoa viva (não mero objeto de veneração…). Neste encontro de amor a pessoa humana pode realizar a capacidade de amar com todo o coração.

2. Real: é o contrário de um amor teórico ou sentimental, ou simplesmente de fachada, de frases feitas… O amor real é aquele que se realiza na vida real de cada dia, que leva a imitar e entregar-se ao amado…

3. Apaixonado: se pensamos bem que estamos falando do amor à pessoa de Jesus, nosso criador e redentor, o amigo que deu sua vida… não podemos pensar nesse amor senão como uma verdadeira paixão de amor. Um amor que penetra, no mais profundo e que é forte e entusiasta, ‘forte como a morte’, esse amor que é capaz da entrega também nos momentos difíceis e que pode levar ao heroísmo.

4. Totalizante: deve estar no centro do coração e da vida…todos os outros ‘amores’(família, amizades, encargos pastorais – pessoas – ) encontram seu critério no amor do Senhor. É o sentido claro da exigência de Cristo que pedia estar disposto a deixar pai e mãe.

É o ponto de unidade de vida de um cristão: quando se experimenta essa amizade com Jesus: muda a maneira de pensar, de viver, a escala de valores (‘coração novo’): nosso amor, o de Cristo: a vontade do Pai – este era o ponto central para o qual convergia todas as ações de Cristo (“unidade de vida”); e aqui não há dicotomias, divisões entre consagração e missão (serviço), quando o coração não está dividido entre o amor de Cristo e o amor de si mesmo. Quando o coração tem que fazer esse jogo duplo de querer amar a Cristo e guardar algum fiapo, esta divisão se reflete na vida… e até se encontram critérios para defender-se : «A coerência de vida dos cristãos com sua fé é condição da eficácia da Nova evangelização» (SD 48)

Mas essa busca de colocar o a. de Jesus no centro não é tão fácil sobretudo porque este amor se apóia na fé primeiramente e, por isso, para alguns o amor de Cristo parecerá ilusório, que não enche o seu desejo de amar, de ser amado, de sentir afeto, de sentir-se acompanhado e consolado: é preciso fazer a experiência da fé…sentir-se acompanhado.

Outra dificuldade para crescer no amor: estar continuamente se perguntando sobre a vocação (grande perigo): podemos passar vários anos inseguros na vocação – isso dificulta o crescimento,  falta a base (não se lança).

Ou então: ficar nas misérias e fraquezas (elas devem ser pontos de partida para conhecer e amar a Jesus).

Ou então deixar-se levar pelos estados de ânimo: falta de formação da vontade (querer o bem com eficácia e constância), que a vontade esteja polarizada pelo amor, querer o bem e desejar alcançar o bem, correr atrás dele; logicamente isso vai supor renúncia que aqui tem sempre um aspecto positivo: não é renunciar um bem, mas saber optar pelo bem melhor: renunciar ao próprio gosto optando pelo cumprimento do dever; renunciar aos planos individuais, optando livremente por seguir uma vida comunitária (obediência)...Ir criando essas convicções (autoformação).

Cor 9, 16-23 (Paulo, um exemplo de um homem apaixonado pela vocação/ missão).

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